Inventário no Brasil: o guia completo (2026)
Perder alguém já é difícil. O inventário não precisa ser um inferno.
O problema é que, no Brasil, inventário mistura burocracia, prazos, impostos, documentos que vencem e gente que some no WhatsApp. O resultado é um processo que costuma se arrastar e gerar custo e estresse desnecessários — especialmente quando a família tenta tocar sozinha sem um sistema claro de execução.
Aviso importante
Este guia é educativo. Regras variam por estado, cartório e caso concreto (ex.: testamento, menor, conflito). Em casos complexos, um advogado é recomendável.
O que é inventário e quando é obrigatório
Inventário é o procedimento para formalizar a transferência dos bens, direitos e dívidas de uma pessoa falecida para os herdeiros (e/ou cônjuge/companheiro), encerrando a situação patrimonial.
Em termos práticos, ele serve para:
- Identificar quem são os herdeiros (e em que proporções)
- Levantar bens e dívidas (imóveis, veículos, contas, investimentos, empresa, etc.)
- Apurar e pagar o ITCMD (imposto estadual)
- Gerar um documento final (formal de partilha / escritura) que permite transferir bens e liberar valores
Quando vira "obrigatório" na vida real?
Você até pode adiar, mas o mundo trava:
- Imóvel não transfere no registro sem partilha
- Bancos e corretoras costumam exigir documentação do espólio
- Venda de bens fica limitada
- O custo e a fricção só aumentam com o tempo
Extrajudicial vs judicial (como decidir)
A decisão mais importante do começo é: vai para cartório (extrajudicial) ou para juiz (judicial)?
Inventário extrajudicial (em cartório)
Em geral, é o caminho "rápido" quando:
- Há consenso entre herdeiros
- Em muitos cenários, não há herdeiro menor/incapaz
- A documentação está organizada
- O caso é "limpo" (sem briga, sem grande confusão patrimonial)
"O inventário extrajudicial costuma ser menos doloroso operacionalmente: você trata com cartório, paga, organiza, conclui.
Inventário judicial (na Justiça)
Tende a ser necessário quando:
- Há conflito entre herdeiros
- Existe menor/incapaz (muito comum virar judicial)
- Há situações especiais (ex.: disputas, medidas urgentes, etc.)
A verdade: judicial é onde o tempo costuma explodir, porque entra em fila, despacho, exigência, resposta, e a família perde visibilidade.
Descubra se o seu caso tende a ser extrajudicial
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Prazos reais (o que é lei vs o que acontece)
Aqui é onde muita família se engana: existe o "prazo no papel" e existe a vida real.
O que costuma acontecer de verdade
Fase 1 (caos + documentos): o maior gargalo. A família perde semanas (ou meses) caçando certidões, matrículas, extratos, comprovantes — e documentos começam a vencer.
Fase 2 (ITCMD): travas por falta de dinheiro em caixa (contas bloqueadas), dificuldade de avaliar bens, divergências.
Fase 3 (assinaturas, cartório/juiz): vai e volta por exigências formais.
Faixas realistas (bem honestas)
- Casos simples e bem organizados podem andar em meses
- Casos bagunçados e/ou judiciais podem se arrastar por muitos meses ou anos, principalmente quando não existe um "sistema" de acompanhamento e cobrança do que falta
Custos (ITCMD + cartório + advogado + extras)
Inventário é caro por um motivo simples: ele soma imposto + taxas + trabalho técnico + fricção.
1) ITCMD (imposto estadual)
- Varia por estado e situação
- Pode envolver: alíquota, base de cálculo, isenções, multas por atraso, parcelamento
- Quase sempre exige avaliação/valoração dos bens
2) Cartório (emolumentos)
No extrajudicial, existem custos do cartório (e no judicial também existe custo processual e de atos).
3) Advogado (quando aplicável)
Mesmo no extrajudicial, é comum haver advogado (e no judicial, praticamente sempre).
4) Extras que ninguém conta
- Segunda via de certidões
- Deslocamentos, autenticações, reconhecimento de firma
- Atualizações por documentos vencidos
- Custos indiretos: tempo perdido, faltas no trabalho, desgaste
Ponto estratégico
Famílias aceitam pagar quando o produto reduz erro, retrabalho, atraso e multa — porque isso é dinheiro real.
Documentos (checklist)
Se você quiser "ganhar" do inventário, o jogo é: documentos certos, no formato certo, antes de todo mundo pedir.
Checklist base (o núcleo)
Do falecido
- Certidão de óbito
- Documentos pessoais (RG/CPF) e informações básicas
- Certidão de casamento (ou prova/declaração de união estável, conforme o caso)
- Informações de bens e contas (o que a família souber)
Dos herdeiros
- RG/CPF
- Comprovantes e certidões que costumam ser exigidas (variando conforme estado/caso)
- Estado civil atualizado (muda a exigência documental)
Dos bens
- Imóveis: matrícula atualizada, IPTU, eventuais débitos/condomínio
- Veículos: documento, multas, valor de referência
- Bancos/investimentos: extratos/saldos na data do óbito, informes
- Empresa/participações: contratos/alterações, quotas, balanços (se existir)
Informação
O "documento certo" depende do seu caso e do seu estado. O checklist genérico ajuda, mas o que resolve é checklist personalizado + rastreamento do que falta + validade + responsáveis.
Organize seus documentos de forma inteligente
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Passo a passo por fase
Pensa no inventário como um projeto com fases. Se você tratar como "projeto", você conclui. Se tratar como "burocracia solta", você sangra por meses.
Fase 1 — Diagnóstico do caso (1–2 horas bem feitas)
Objetivo: saber o terreno.
- Quem são herdeiros?
- Há conflito?
- Há menor/incapaz?
- Existe testamento?
- Quais bens existem (pelo menos em alto nível)?
- Qual estado rege o ITCMD?
Saída da fase: decisão inicial (tende a extrajudicial ou judicial) + lista de pendências críticas.
Fase 2 — Caça e organização de documentos (onde tudo quebra)
Objetivo: parar o "vai e volta".
- Criar uma lista de documentos com status: pendente / solicitado / recebido / vencendo / validado
- Definir responsáveis (cada herdeiro com suas pendências)
- Centralizar tudo (não WhatsApp)
"Se você fizer a organização documental certa: você economiza semanas de retrabalho e desgaste.
Fase 3 — Levantamento e valoração dos bens
Objetivo: ter números defensáveis para imposto e partilha.
- Imóveis: matrícula e situação
- Veículos: situação e valor
- Bancos/investimentos: saldo e comprovação
- Dívidas: o que existe e como impacta
Fase 4 — ITCMD (cálculo, declaração, pagamento)
Objetivo: destravar o processo.
- Apurar imposto (regras do estado)
- Verificar prazos/multa
- Planejar pagamento (muitas famílias travam aqui)
Fase 5 — Montagem do dossiê (o pacote "cartório-ready / advogado-ready")
Objetivo: reduzir exigências e devoluções.
- Checklist final de anexos
- Índice do que está sendo entregue
- Documentos validados e organizados
Fase 6 — Assinaturas e conclusão (cartório ou Justiça)
Objetivo: finalizar sem surpresa.
- Ajustes finais
- Assinaturas/procurações
- Emissão da escritura/partilha
Fase 7 — Pós-inventário (a parte esquecida)
Objetivo: fazer a vida voltar ao normal.
- Transferência de imóvel no registro
- Transferência de veículo
- Encerramentos e ajustes em bancos/investimentos
- Atualização cadastral onde for necessário
Perguntas frequentes (FAQ)
Inventário sempre precisa de advogado?
Depende do caminho e do caso. Em muitos cenários, é recomendado/necessário. O ponto é: com organização e dados corretos, o trabalho fica menor e mais previsível.
Dá pra fazer inventário rápido?
Dá pra fazer mais rápido quando a família não perde tempo em "documento pingado" e quando o caminho (extrajudicial vs judicial) é bem escolhido.
O que mais atrasa?
Documentos espalhados + gente que não entrega + exigências repetidas + falta de visibilidade do status.
Quanto custa um inventário em média?
Varia muito conforme o valor do patrimônio, estado (ITCMD), e se é judicial ou extrajudicial. Em geral, espere gastar entre 4% e 10% do valor total do patrimônio entre imposto, taxas e honorários.
Posso vender um imóvel antes de concluir o inventário?
Tecnicamente, é possível através de alvará judicial, mas é um processo burocrático adicional. O ideal é concluir o inventário primeiro.
Quer começar do jeito certo?
Inventário no Brasil é um projeto chato, mas gerenciável — se você tiver:
- Checklist certo
- Prazos e validade
- Responsáveis
- Um lugar único para documentos e status
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